gotas de vida
pessoas e momentos fictícios. pseudo-realidades que habitam uma mente.
episódios imaginários transcritos para o mundo material.
a sala de espera
um aglomerado de corpos doentes. numa sociedade de mentalidades muito doentes.
cubículo atrofiado e atrofiante. não há revistas, poderá este cubículo ser considerado uma sala de espera quando nele não existem revistas?
doentes de todas as idades, com vários tipos de queixas. todos ali, uns sentados, outros em pé. mas todos em espera.
as conversas do costume. ambiente pesado. a troca de bocas sobre o exagero do preço, que os médicos só sabem roubar. que o primo da cunhada da prima de segundo grau foi a um outro médico que faz maravilhas. mas logo surge a contra-opinião de uma outra paciente que já o frequentou e pela altura do frio tem sempre problemas... "chulos é o que eles são todos" desta forma acaba o seu ataque pessoal.
dois jovens enfiados no meio de uma sala preenchida com meia idade. são os únicos que se riem da maneira como os de meia idade falam. riem-se da forma e conteúdo de tais afirmações.
até que uma senhora repara que a novela que está a dar na tv não é a do seu agrado.
e aqui sim, começa a festa na sala de espera. discussões entre qual a melhor novela, se a do canal pimba-pop português com o seu teen-power ou se o canal luso-brasileiro com as suas importações em massa. muda o canal, diz uma, não mudes que esta é melhor diz a outra... e instala-se a confusão. os dois jovens riem-se. aqueles risos que se manisfestam em pequenos sorrisos.
um em cada ponta da sala deparam-se com este ambiente. um parece mais contente, ou então o facto de estar a ouvir música pode apenas servir para relaxar sobre o que alguns momentos depois irá ouvir. o outro parece mais preocupado, com os seus exames nas mãos, enrolando constantemente os envelopes abertos...
mas o tema das novelas acaba...
uma das velhas gaiteiras diz orgulhosamente, a alto e bom som, que o que ela gosta é de dançar, e que se não se fica bem na próxima semana não vai poder dançar no baile da sua terra. uma outra sua conhecida confirma a sua vocação como dançarina compulsiva em tudo o que é baile e arraial.
só não danço o roca. isso de roca não é para mim, é para quem gosta de abanar a cabeça. danço tudo menos roca! diz com um brilho nos olhos.
agora os jovens só ligam aos computadores, passam lá horas enfiados e não convidam uma rapariga para dançar!! é a frase que leva a sala de espera a rir.
então e discotecas, pergunta uma comadre. discotecas?! ainda não fui mas não vou morrer sem ir lá dançar pelo menos uma vez. a velha gaiteira conquista o riso da sala de espera, até os jovens já esboçam algo mais que apenas um sorriso.
ah pois é, continua ela, e quando fazem o comboio eu vou logo atrás!
o riso ecoa na sala de espera.
mas logo é silenciado. silenciado pela abertura da porta do consultório médico.
próximo...
[fevereiro 2006]
Sem comentários:
Enviar um comentário