o ar que inspiro é feito de navalhas afiadas
que me cortam as vias respiratórias.
sinto o cheiro dos lençóis que imagino
e apenas sinto os vidros no chão
a cortar-me os pés.
ouço o silêncio triste da chuva a bater nos vidros
a sequência fora de tempo das gotas,
enquanto arranco, pena a pena,
as asas que num passado recente em mim cresceram.
pego no isqueiro.
incendeio uma e vejo-a arder enquanto a seguro.
deixo o fogo consumir a pena,
não tenho medo da proximidade dos dedos.
desejo que o fogo transforme em cinza parte de mim.
junto todas as penas
num monte imperfeito, como eu.
deito-me sobre elas
e bato-lhes
como se de uma almofada se tratasse.
deitado sobre os restos das minhas asas
tento fechar os olhos.
deitado sobre mim
sinto o vidro nos pés
e a garganta cortada
com golpes milimétricos.
levanto-me.
sinto os vidros a penetrar na carne.
uma dor que percorre o corpo
faz com que os joelhos tremam.
agarro-me às vértebras
enquanto estas parecem comprimir e querer rebentar.
olho a minha almofada.
a almofada de mim.
desejo vê-la arder.
pegar-lhe fogo.
arrancar os vidros dos pés
e atirar-me para o centro do fogo.
num só momento queimar as asas
e tentar cauterizar as feridas.
mas... e as feridas da alma?...
[julho 2006]
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