25 julho 2006

chuva de verão

Uma gota de chuva, como uma lágrima. É conveniente admito, posso andar sem ninguém desconfiar se choro ou simplesmente gosto de andar à chuva de verão...
Tenho duas lágrimas. Uma de alegria e uma de dor. A mesma forma, diferentes conteúdos. Tenho duas lágrimas e uma gota de chuva. É conveniente especialmente para ti/mim.
Tu olhas-me e vês as três gotas, desconfias (ou não), mas acho que não vais saber ao certo...
Porque sou mentiroso.
A chuva escorrega pela cara e lentamente penetra na pele, sinto o cheiro. O cheiro da pele usada, arranhada com as unhas dos dedos e rasgada com as garras da alma...
Sinto-me num banquete de cheiros e logo sensações, sentimentos e memórias.
Cheira-me a terra molhada dos jardins, sinto claramente o aroma das flores que recentemete mataram a sua sede, sinto o teu cheiro, em mim, misturado com o aroma do gel de banho, com a chuva e com as lágrimas.
A chuva escorrega pela cara e lentamente penetra na pele desaparecendo... na forma.
As lágrimas não. Essas ficam na cara, não mudam de forma (nem de conteúdo) deixem do canto do olho para perto do nariz.
Olhas-me e sorris, comentas as minhas lágrimas de alegria (mas apenas uma o é) enganada pelo meu sorriso mentiroso. Continuo a sorrir e comento a tua alegria.
O meu sorriso mentiroso não desaparece, e no momento em que desaparece surge sempre um olhar matreiro de menino rabujento e brincalhão.
O meu sorriso é mentiroso, é sincero, mas é mentiroso. É sincero porque ele é a consequência directa da tua alegria. O facto de te ver sorrir e saber que estás bem, faz-me bem, faz-me sorrir. Sinto-me alegre, mas uma pequena parte dessa tua alegria significa uma dor em mim, uma dor secreta. E é aí que o meu sorriso é mentiroso, ele monopoliza o espaço facial de demonstração sentimental. Monopoliza e manipula. Porque uma das lágrimas é de dor, mas tu não a vês assim porque o sorriso não deixa...
E os dias passam.
No fim de mais um dia intenso e diversificado, escrevo estas linhas, enquanto bebo groselha gelada e ouço repetidamente a banda sonora do dia. Uma após a outra, ouço vezes sem conta as mesmas duas músicas. Após a descarga intensa de metal poderoso e cortante, entra o solo da Floods dos Pantera. Um grande solo, uma grande banda, um grande guitarrista, assassinado em palco. A intensidade deste solo é algo acima do humano. O toque humano, naquelas cordas... a mistura com o som de chuva em plano de fundo, tornam impossível eu não sentir nada cada vez que a ouço. Mas hoje sinto ainda mais. Depois, num registo acústico, a voz agri-doce que canta Walk away. O ambiente preenche-se com a guitarra de Ben Harper, e a letra faz o resto. Já não é a primeira vez que esta música se encaixa em passagens do livro que escrevo na alma com uma navalha.
Pela janela entram os clarões dos relâmpagos que rasgam o céu da noite de hoje. Apenas vejo o refexo dos clarões na minha parede, não ouço os trovões, nem sei se chove. Ouço a chuva, mas a que aparece na Floods, os phones não deixam entrar mais nada em mim.
A trovoada continua. Quando estive na praia à tarde contei o meu segredo ao mar. Contei que uma estrela está a morrer. Disse-lhe das lágrimas e do sorriso. Não sei o que o mar disse ao céu, mas pelo que vejo, o céu rasga-se e grita o que pode ser a dor de uma estrela que morre.
Se acho que estou a fazer o correcto porque me sinto o responsável pela trovoada?
Uma vez uma menina-estrela, que trato sempre como se fosse pequenina mas que é enorme, disse-me que temos que saber afastarmo-nos. E eu respondi que esse é um dos meus problemas. Ela disse que era altura de eu aprender a lição.
Tentei explicar ao céu que é isso que estou a tentar fazer, mas o céu não me ouve, os trovões gritam mais alto. E a trovoada vira-me as costas....
Em vão tento dizer que a alegria dela é mais importante que a minha tristeza.
Este é o meu segredo.Ninguém me ouve... pois falo com o silêncio e disfarço com as palavras. Só quem sabe sabe ler o silêncio dos actos e os gestos do silêncio percebe o que se passa comigo.
A menina-estrela e o mar ouviram, porque lhes contei. O mar não disse nada, e tenho medo que ele conte a alguém, porque a maré ao mudar pode trazer o segrego que levou. A menina-estrela não fez as perguntas de sempre, aquelas para que às vezes não há respostas. Apenas falou e ficou em silêncio. Do alto do seu voo ela sabe que isso faz bem a ambos.


Lembro-me da frase do Hartigan em Sin City, “An old man dies. A young girl lives. A fair trade.” Uma estrela morre (em parte?), para que outra seja feliz. Parece-me o correcto a fazer... (mas porque continuo a sentir que algo está mal?)
Vou esconder a dor, e vou sorrir... não sei se é o correcto a fazer, mas vou fazê-lo porque sim, e porque me apetece...
Um sorriso que vem do fundo, o sorriso inevitável que temos quando vemos que as pessoas próximas de nós estão bem...
[junho 2006]

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